A Polícia Civil prendeu, nesta quinta-feira (11),
em São Paulo, João Luís Melo de Sousa, conhecido como "Don Juan do
Ceará". Ele é investigado por prática de crimes de estelionato, extorsão,
falsidade ideológica e ameaça a mais de 40 vítimas em Rio de Janeiro, São
Paulo, Goiás, Distrito Federal e Ceará.
O G1 não
localizou a defesa do suspeito para comentar sua prisão.
As denúncias afirmam que, após iniciar um
relacionamento, o homem contava uma história de vida triste para sensibilizar
as mulheres e conseguir dinheiro. Em alguns casos, a extorsão chegou ao valor
de R$ 40 mil.
Segundo a polícia, Sousa segue detido no 96º
Distrito Policial de São Paulo, na
Zona Sul. A corporação investiga, agora, se o suspeito teria feito novas
vítimas durante esta passagem pela cidade. A prisão preventiva dele foi
pedida após uma vítima o reconhecer. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública
(SSP) disse que "outras vítimas estão sendo chamadas para
reconhecimento".
Grupo de
Whatsapp
O esquema de Sousa começou a ser desmontado quando um grupo de mulheres
cearenses e de outros estados se uniu por meio de um grupo de
WhatsApp para denunciá-lo.
De acordo com as vítimas, ele se apresenta como
oficial do Exército Brasileiro, lotado na Agência Brasileira de Inteligência
(Abin), informação negada pela 10ª Região Militar, e usa a conversa fácil para
enganar mulheres do Cearáx e de outros estados. Uma das
vítimas, que preferiu não se identificar, contou que o estelionatário iniciou o
contato pelas redes sociais.
Aguardado para prestar depoimento no dia 17 de
junho, na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), em Fortaleza, o
Sousa não compareceu nem enviou representantes. Conforme a delegada da unidade,
ele prestaria esclarecimentos sobre as acusações e confirmar seu endereço. A
polícia seguiu em investigações para poder ouvi-lo.
Depoimento
das vítimas
Uma das vítimas, que prefere não se identificar, conta que o estelionatário
inicia o contato pelas redes sociais. “Se diz graduado em economia, psicologia
e com pós-graduação em marketing. A gente ficou falando uma semana (…). Ele
mandando mensagens de bom dia, realmente uma pessoa que sabe escrever bem,
falar bem, se comunica, e aí uma semana depois nós marcamos de nos conhecermos
num barzinho (...) No dia seguinte, foi que a gente saiu, foi à praia, só nós
dois. E a gente começou o relacionamento. Logo a gente já começou a namorar
mesmo.
Na sequência, começaram os pedidos de ajuda
financeira, com uma desculpa que as vítimas achavam convincente. “Ele dizia que
tinha seis filhos. Tinha um oficial de justiça que todo mês estava atrás dele
por causa das pensões que ele não pagava (...) e que o governo federal não
estava fazendo repasse das diárias que eles tinham direito. (…). Ele ligava,
por exemplo, dizendo que estava em Brasília, que não tinha dinheiro nem para o
almoço. Aí ele começava a fazer chantagem dizer que estava desistindo, chorando
no telefone”, conta.
Vítimas
em Brasília
Uma empresária de Brasília – que não quis se identificar – diz que conheceu o
acusado na internet e que ele se passava por paraquedista. "Ele se
aproxima com um papo muito envolvente. Ele te leva pros melhores restaurantes,
envia flores. Um príncipe de para-quedas caiu em minha vida", conta. Eles
tiveram um relacionamento por três meses no ano passado e chegaram a ficar
noivos. Foi quando ele pediu R$ 100 mil emprestados prometendo pagar em 20
dias.
A mulher vendeu o carro, pegou dois empréstimos,
mas nunca recebeu o dinheiro de volta. Ela diz ter um áudio de Souza prometendo
pagar a dívida. "'Mor', eu te devolvo algum dinheiro ainda esse mês, pode
ficar tranquila, viu? Aquele negócio que eu disse que ia colocar 8 mil reais na
tua conta, ele entra esse mês, quase certeza", disse.
Outra vítima do Distrito Federal disse que
emprestou em torno de R$ 20 mil para o suspeito, que nunca pagou. Ela afirma
que todas as vezes que Sousa pedia ela dava dinheiro "Diversas vezes que
ele me pedia, emprestado, era com a desculpa, de, ou pagar pensão, ou pagar
alguma cirurgia, que ele vivia dizendo que tinha um aneurisma", disse.
E, por fim, ele disse que o pai dele estava muito
doente. Eu ajudei a pagar tratamento do pai, cirurgia e no final ele ainda
disse que o pai dele tinha falecido e que não tinha dinheiro pra ajudar com o
funeral. E eu ajudei, né? Fiz empréstimos", afirma uma das vítimas do
golpe.
Contato
com o suspeito
No dia 14 de maio, a TV Verdes Mares conseguiu falar com João Luís por
meio de um telefone com o DDD de São Paulo, repassado por uma das mulheres. Ele
não revelou onde estava, negou as acusações e afirma que está à disposição da
polícia. “Vai fazer seis anos agora em julho que eu moro no mesmo lugar. Se
alguém quiser me encontrar é muito fácil”, afirma.
Enquanto isso, as mulheres enganadas por João Luís
seguem na esperança de que ele seja punido. “Na verdade, eu me apaixonei por
alguém que não existe”, diz uma delas. “Você amou um fantasma, alguém que não é
real”, constata outra.
Em um dos golpes, João Luis dizia para as vítimas
que sofria de aneurisma cerebral e câncer de próstata como forma de pedir dinheiro para realizar exames.
A estimava da polícia é que o homem tenha feito mais de 30 vítimas no Ceará,
Distrito Federal e Goiás, além de outros estados.
Conforme a titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), delegada Rena Gomes
foram instaurados dois inquéritos policiais para apurar as denúncias no Ceará.
Conforme a delegada, o suspeito poderá ser indiciado por estelionato, extorsão,
falsidade ideológica e ameaça. Ele negou as acusações.