Os dois são muito parecidos fisicamente, mas muito diferentes. E o abismo entre os dois irmãos ficou mais claro do que nunca na sexta-feira da semana passada, quando o coronel da reserva Edivaldo Camelo da Costa, com mais de 30 anos de bons serviços prestados à polícia, chegou, arrasado, à Divisão de Homicídios para informar que o irmão, Edvardo Camelo da Costa, era o homem que aparecia nas imagens da estação Uruguaiana do metrô matando, com dois tiros, um homem na fila da bilheteria.
O auxiliar de serviços gerais Alexandre de Oliveira, de 47 anos, foi assassinado pelo irmão do oficial da Polícia Militar. Para o coronel da reserva, que comandou batalhões no Rio, era o ponto final de um drama familiar e o reconhecimento do seu fracasso em tentar resgatar o caçula da vida do crime.
O coronel Camelo,(53), como muitos outros cariocas, viu Edvardo,(46), no vídeo do assalto. Os dois tinham se reencontrado há pouco tempo. Edvardo foi preso em 2006. Somando o período detido e mais um tanto de separação, não se viam há 20 anos. O reencontro aconteceu quando ele deixou o presídio, em março deste ano, beneficiado pela progressão de sua pena para o regime aberto. A pedido da família, o coronel Camelo foi resgatar o irmão, que se encontrava na favela Barreira do Vasco, sem emprego e sem-teto.
— Ele começou a trabalhar na minha empresa de embalagens em Niterói. Dei casa mobiliada, roupa e comida. Na sexta-feira, ele saiu de manhã dizendo que ia procurar outro emprego. Chegou a me ligar às 16h, dizendo que não retornaria, porque ia trabalhar como entregador de pizza, pilotando uma moto. Mas, àquela altura, já tinha matado um inocente — desabafou, nesta segunda-feira, o coronel ao GLOBO.
Vindos ainda crianças do Ceará com os pais, migrantes pobres e trabalhadores, os irmãos tomaram caminhos opostos na vida: Camelo se formou oficial da PM em 1984. Edvardo teve a sua primeira anotação penal em 1995, acusado de estelionato no Catete. No ano seguinte, enquanto um combatia o crime na Região Metropolitana do Rio, o outro era preso juntamente com a quadrilha que atacara a pequena agência do Banco do Brasil na cidade de Jaru, em Rondônia. De tão violento, o crime terminou em tiroteio, com um dos bandidos feridos.
Enquanto o coronel Camelo ia para a reserva com uma ficha limpa, Edvardo acumulava dez anotações criminais, com três condenações — duas por assalto e uma por estelionato. Entre os batalhões por onde passou, o oficial comandou o 5º BPM (Praça da Harmonia), onde implantou o policiamento a pé para combater os assaltos no Centro. Em 2009, assumiu o 9º BPM (Rocha Miranda) e um ano depois comandou o primeiro batalhão de campanha, no Complexo do Alemão, que, junto com o Exército, preparou as comunidades da região para a implantação das UPPs.
No depoimento que deu à Divisão de Homicídios, o coronel Camelo revelou detalhes da vida pregressa do irmão, que garantiram a decretação da prisão provisória de Edvardo pela Justiça. Agora, o ladrão acusado de matar o auxiliar de serviços gerais está foragido.
Mesmo para um oficial acostumado à rigidez do regime militar, não foi fácil para o ex-comandante atravessar a porta de vidro da DH para entregar o próprio irmão, sete anos mais novo, que ele ajudou a criar. Antes de ver as imagens do assalto, o coronel Camelo tomou conhecimento do crime por uma amiga, que ligou para o oficial quando ele estava parado num engarrafamento na Ponte Rio-Niterói. Depois de assistir ao vídeo do assalto no metrô, disse para si mesmo.
— Vou fazer meu papel de polícia, de cidadão. Quero esse cara preso, porque ele é um mal para a sociedade — contou ele nesta segunda-feira, com a voz embargada.
O coronel disse que o irmão viveu no Ceará até os 12 anos. Na década de 90, caiu no crime.
— Dizer que ele não teve oportunidade é mentira — frisou o oficial. — Eu o ajudei. Somos irmãos do mesmo pai e da mesma mãe. É lamentável que ele tenha tirado a vida de uma pessoa de bem de uma forma tão estúpida.