O consumo de álcool
entre adolescentes no Brasil vem crescendo. De acordo com a legislação, vender,
fornecer, servir, ministrar ou entregar, ainda que gratuitamente, bebida
alcoólica a menores de 18 anos é crime sob pena de detenção de 2 a 4 anos. No
entanto, apesar disso o acesso ao álcool parece fácil e muitas vezes é
negligenciado.
De acordo com dados
da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE) 2015, divulgada na última
sexta-feira (26) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
50,9% dos alunos do 9º ano do Ensino Fundamental no Ceará já experimentaram
bebidas alcoólicas. O levantamento, com estudantes de escolas particulares e
públicas, realizado em 2015, mostra ainda que 41,5% conseguiu a bebida em
festas, 28,9% com amigos e 12% compraram em mercados, lojas, bares ou
supermercados.
Esse cenário é
reflexo de uma construção social longa que relaciona o álcool ao lazer,
comemoração e festa. Assim, com o rótulo de catalizador de felicidade, o perigo
que ele promove fica escondido. Para o adolescente, cuja vulnerabilidade se
apresenta mais forte, os motivos para iniciar o consumo de álcool são inúmeros.
E os riscos também.
"Eles vão
experimentar o álcool pela curiosidade, exposição, para compensar as
fragilidades das relações, pela desorganização familiar, pela influência com
dos amigos. Além disso, o jovem não tem atitude e comportamento que levem em
conta outros valores, como segurança, ética, ficando expostos a outros
riscos", explica o psiquiatra e presidente executivo Centro de Informações
sobre Saúde e Álcool (CISA), Arthur Guerra de Andrade.
Por si só o consumo
de álcool já seria um grave problema. Estudos mostram que indivíduos que
começaram a beber antes dos 15 anos têm cinco vezes mais chance de desenvolver
problemas relacionados ao uso de álcool do que aqueles que começam a beber após
os 21 anos. O consumo excessivo, também chamado de alcoolismo, está entre esses
problemas. No entanto, a bebida alcoólica é considerada uma porta de entrada
para o uso de outras drogas.
Foi o que aconteceu
com o empresário Guilherme Bezerra. Aos 12 anos, experimentou o álcool para se
sentir incluido na roda de amigos da escola. "Eu estudava em uma escola de
meninos ricos e me sentia diferente, não tão bom. Hoje eu sei que comecei a
beber para tentar preencher esse vazio. Bebi para querer ser o corajoso. Depois
veio a droga. Tudo o que fiz era para aparecer", relembra ele, que hoje,
aos 29 anos, comemora 8 anos de sobriedade.
Aos 14 anos, veio a
primeira internação- já com experiência de associação do álcool a outras drogas
como a maconha. "Eu me tornei alcoolista tanto quanto dependente de outras
drogas". Depois dessa, foram mais 14, em clínicas especializadas,
comunidades terapêuticas e manicômios. "Passei talvez 1 anos e meio da
minha vida preso em manicômio. Mas eu não me revolto com isso. Sei que as
internações foram necessárias para me manter vivo", conta ele.
Sem ajuda
De fato, o caso de
Guilherme é raro. Conforme explica a gerente de Célula de Atenção à Saúde
Mental da Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza (SMS), Carolina Aires, os
adolescentes não costumam buscar ajuda com o álcool aos Centro de Atenção
Psicossocial Álcool e Drogas (CAPs AD). Eles geralmente só percebem o vício
quando já entraram no consumo de outras substâncias. E com idade maior.
Realidade de Hanna
Pereira, 25 anos. Vítima de exploração sexual, aos 13 anos, foi obrigada a usar
cocaína. "Eles me obrigavam a usar porque pagava mais. Aí eu fui me
viciando e, sempre que usava droga, eu também bebia muito. Quando vim pra
Fortaleza, aos 19 anos, fui para o crack. Piorou tudo", relata ela que
mora com o companheiro na Favela do Oitão Preto, no Centro.
O início do
tratamento começou por aqui. Antes, nem sabia o que era um CAPs. Desde então,
ela se internou algumas vezes para fazer a desintoxicação. As recaídas são
muitas também. De volta ao Centro de Atendimento Psicossocial Álcool e Droga,
na Barra do Ceará, ela contou que a última crise a deixou muito debilitada e
assustada. "Vi bicho. Corria no meio da rua. Poderia ter morrido. Tenho
medo de morrer, por isso eu queria sair dessa vida", relata.
O resultado do uso
excessivo do álcool e droga para Hanna foi uma saúde debilitada. Já se internou
com Tuberculose e Pneumonia. Morou na rua, assim como Guilherme. Ela se esforça
para abandonar o comportamento, mas reconhece que as tentações são grandes.
"O povo me dá droga, cachaça. Sou amiga dos traficantes, do povo da
favela. Amiga, assim, né? Amigo das drogas é meio atravessado né? Já fiquei com
fome e eles não me deram o que comer", conta ela que sonha em comprar uma
casinha mais longe do acesso fácil à droga. "Só tenho medo de acabar minha
casa com a droga. Por isso não tento agora".