Preocupado com o
impacto das delações da Odebrecht, o presidente Michel Temer convocou na noite
de ontem uma reunião de emergência em Brasília, no Palácio do Jaburu. Segundo
interlocutores, apesar de "tranquilo", Temer se mostrou
"indignado" com o vazamento da delação do ex-diretor de Relações
Institucionais Cláudio Melo Filho. Além de ressaltar que o depoimento ainda
precisa ser homologado, aliados do presidente destacam que o acordo pode ser
invalidado. Interlocutores citam como exemplo a suspensão das negociações da
delação do ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, após vazamento na imprensa.
Na última
sexta-feira (9), o documento de 82 páginas com informações de Cláudio Melo
Filho foi divulgado por veículos de comunicação. O jornal "O Estado de S.
Paulo" obteve o documento, em que o executivo menciona que o presidente da
República fez pedido de apoio financeiro para o PMDB ao então presidente e
herdeiro da empresa, Marcelo Odebrecht.
No Jaburu, ontem,
Temer convocou o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, e o secretário de
Programa de Parceria e Investimentos (PPI), Moreira Franco. A ideia, além de
discutir o efeito das delações da Odebrecht, já que os dois também estão
citados, é desenhar a pauta econômica da semana para criar uma agenda positiva.
O objetivo do
governo é reagir a mais uma crise política mostrando "trabalho". Além
de estudar novas medidas econômicas, o governo precisa garantir a votação da
PEC do teto dos gastos no Senado, em segundo turno, e do Orçamento. Para isso,
o presidente continuará investindo em conversas com a base aliada e,
principalmente, com os tucanos, que devem ficar com o comando da Secretaria de
Governo, apesar do imbróglio envolvendo a possível nomeação do deputado Antonio
Imbassahy (PSDB-BA). O nome chegou a ser dado como certo, mas decisão foi
suspensa após a pressão de parlamentares do chamado 'Centrão'.
Alguns
interlocutores, ponderam, que apesar de ter que prosseguir nas conversas, o
foco é garantir o avanço das matérias. A nomeação "não precisa ser feita
às pressas", dizem.
Vazamento
O procurador-geral
da República, Rodrigo Janot, vai solicitar a abertura de uma investigação para
apurar o vazamento de documento sigiloso que seria relativo à delação premiada
de um dos executivos da Odebrecht.
"O vazamento
do documento que constituiria objeto de colaboração, além de ilegal, não
auxilia os trabalhos sérios que são desenvolvidos e é causa de grave
preocupação para o Ministério Público Federal, que segue com a determinação de
apurar todos os fatos com responsabilidade e profissionalismo", diz nota
do Ministério Público Federal.
Na nota, o MPF
voltou a expressar que todo documento de colaboração, para que possa ser usado
como prova e para que tenha cláusulas produzindo efeitos jurídicos para o
colaborador, somente possui validade jurídica após homologação pelo Supremo
Tribunal Federal.
Planalto
Desde sexta-feira,
foram publicadas diversas reportagens com informações atribuídas ao depoimento
do ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht Cláudio Melo Filho.
Melo seria o
responsável pelo relacionamento da empresa com o Congresso Nacional. Segundo as
reportagens, ele teria citado nomes de 51 políticos de 11 partidos que teriam
recebido propina da empresa, entre eles Michel Temer.
Em nota, na última
sexta-feira, o Palácio Planalto repudiou as acusações de que o presidente
Michel Temer teria solicitado valores ilícitos da empreiteira Odebrecht em meio
à campanha à Presidência de 2014.
De acordo com
reportagem da revista "Veja", Cláudio Melo Filho teria dito, em
delação premiada, ter entregue parte dos recursos para a campanha em dinheiro
vivo, em 2014, no escritório de advocacia de José Yunes, amigo e conselheiro
próximo de Temer.
Em nota, o Planalto
afirmou que todas as doações da construtora foram legais.
"O presidente
Michel Temer repudia com veemência as falsas acusações do senhor Cláudio Melo
Filho. As doações feitas pela Construtora Odebrecht ao PMDB foram todas por
transferência bancária e declaradas ao TSE . Não houve caixa 2, nem entrega em
dinheiro a pedido do presidente".
Acordo de leniência
A Odebrecht, maior
empreiteira do país, assinou um acordo de leniência, uma espécie de delação
premiada de empresas, com a força-tarefa da Operação Lava Jato. No acordo, além
de revelar práticas ilícitas cometidas por funcionários e diretores, a empresa
compromete-se a pagar uma multa, cujo valor gira em torno de R$ 6,8 bilhões.
Em comunicado
oficial, a Odebrecht pediu desculpas ao país e admitiu ter cometido
"práticas impróprias" em sua atividade empresarial.
"Desculpe, a
Odebrecht errou", destaca o título do comunicado público.
"Foi um grande
erro, uma violação dos nossos próprios princípios, uma agressão a valores
consagrados de honestidade e ética", afirmou o comunicado da empreiteira
acusada pelo Ministério Público Federal de participar do cartel que fraudava
contratos da Petrobras.