A decisão do
Supremo Tribunal Federal (STF) de que só as câmara de vereadores podem tornar
inelegível um prefeito que teve suas contas rejeitadas pelos tribunais de
contas dos municípios foi rechaçada ontem na Assembleia Legislativa do Ceará.
"Lembro que no
ano de 2010 comemorávamos quando a Lei Complementar 135 foi aprovada pelo
Congresso Nacional. Bestial ilusão", assim se posicionou em seu discurso o
deputado Fernando Hugo (PP).
Agora, para ficarem
impedidos de disputar a eleição, os prefeitos terão que, além da desaprovação
do Tribunal que auxilia o Legislativo na análise dos gastos, serem julgados
pelos vereadores. "O Supremo acabou com os tribunais de contas dos
municípios. Peço a Chico Aguiar (presidente do TCM-CE) que mande os
conselheiros para casa, pois acabou o trabalho".
"O Supremo
determina que só passe a valer a análise das câmaras municipais. Sou
parlamentar e vivencio esse país e esse Ceará e, sabemos que para aprovação de
contas do Interior, principalmente, vale muito mais a relação presencial de
momento do prefeito com os vereadores. Quem toma decisão com esta mostra que
não conhece a realidade da política aplicada nos municípios brasileiros".
Fernando Hugo citou
casos já ocorridos em território cearense quando prefeitos teriam negociado com
vereadores a desaprovação das contas de ex-gestores.
"De agora em
diante isso será ainda mais comum, porque o Supremo estimulou que exista essa
prática. Nos preparemos para navegarmos na contramão do momento histórico que o
país vive. Quem for bandido se candidate porque de agora em diante o STF vai
passar a exigir carteira de bandido para indivíduo se candidatar",
disparou.
Em discurso
inflamado do início ao fim, Hugo lamentou que a decisão tenha sido divulgada no
dia em que o advogado Djalma Pinto, especialista em direito eleitoral, defensor
da moralidade na política, lançava seu livro onde fala sobre a ilusão da Lei da
Ficha Limpa.
Ele também lembrou
que está agendada para hoje a entrega ao Tribunal Regional Eleitoral do Ceará
(TRE-CE) das listas de gestores que tiveram as contas desaprovadas pelos
Tribunais de Contas do Município e do Estado.
Os presidentes do
TCM e do TCE, conselheiros Francisco Aguiar e Edilberto Pontes, farão a entrega
das listas ao presidente do TRE-CE, desembargador Abelardo Benevides Moraes, na
presença dos membros da Corte da Justiça Eleitoral. "Chico (Aguiar), você
é um homem de bem, não perca seu tempo entregando relação de prefeitos fichas
sujas, se o Supremo diz que precisa ser bandido para ter a candidatura
garantida e, assim, o Brasil caminha para trás. Ao mesmo tempo em que se
aplaude a Operação Lava Jato a casta maior da Justiça desarma tudo o que
legitimamente através dos tribunais se poderia fazer".
Mas as críticas não
se limitaram aos ministros do STF. Para Hugo, a falta de mentalização política
do eleitorado é o que dá oportunidade para "corruptos" ocuparem os
espaços políticos.
"Sempre
votamos mal. O que existe de péssima representatividade popular nas câmaras,
assembleias, no Congresso e até na presidência da República, é fruto do voto,
que é sabidamente o passo mais importante que a democracia oferece para que se
possa ter a igualdade soberana. Esse ato no Brasil precisa ser melhorado",
apontou.
Riscos
Outro que chamou
atenção para os "riscos que a decisão do Supremo oferece", foi o
deputado Ferreira Aragão (PDT). Ele concordou que a definição significa um
retrocesso eleitoral.
"A partir de
agora o vereador ficou ainda mais gabaritado e vai se valorizar muito mais na
frente do prefeito que terá seu destino nas mãos da Câmara que seguirá a
orientação do Tribunal de Contas se quiser. Se o prefeito tiver a maioria dos
vereadores ao seu lado, terá as contas aprovadas sem problema, mas se for o
contrário, já sabemos como será a decisão", analisou.
Assim como fez
Hugo, o pedetista afirmou que os eleitores deveriam fazer mea-culpa, expressão
em latim que significa minha culpa. "Deveria olhar perante o espelho e
dizer que tem culpa por não saber votar. O grande problema existente hoje no
processo eleitoral está na qualidade do voto", disse.
"Lembro que
durante uma das minhas campanhas eu fiz um livreto onde mostrava que fui o
parlamentar que mais produziu entre os anos de 2006 e 2010. Entregava ao
cidadão que olhava, lia e ao terminar me pedia que pagasse uma conta de luz. De
que adiantou todo o trabalho que fiz?", questionou.
Na contramão do
pensamento dos dois primeiros parlamentares, o deputado Sérgio Aguiar (PDT)
expôs sua impressão sobre a decisão, apontando que não há nenhuma usurpação do
poder de julgamento dos tribunais de contas, mas tão somente um esclarecimento
sobre o que deve ocorrer sobre as contas de prefeitos que ocupem posições de
gestores municipais.
Para ele, muitos
podem pensar que as contas de governo dos prefeitos têm a característica de
serem julgadas pelo TCM.
"O que foi
definido foi que o prefeito, estando gestor de qualquer pasta vai ter o seu
parecer prévio proferido pelo TCM, entretanto quem vai fazer o julgamento são
as casas legislativas".