O problema das filas de cirurgias ortopédicas de alta complexidade no Ceará
está em discussão na Justiça Federal, junto com o Ministério Público Federal.
Nesta quarta-feira (28), a oitava audiência de execução teve como um dos
encaminhamentos a criação de um fluxo para organização e regulação da fila para
cirurgias do tipo.
Atualmente, essas cirurgias acontecem por meio de decisões judiciais e com
aquisição de próteses com preços até seis vezes acima do previsto pelo Sistema
Único de Saúde (SUS), conforme a apuração das audiências. As filas de espera
para as cirurgias chegam a quatro anos, segundo a Justiça Federal.
Entre outros problemas apontados nas audiências estão a judicialização da
saúde, pequena quantidade de hospitais habilitados no estado para realização
dos procedimentos - a Justiça Federal indicou apenas o Hospital Universitário
Walter Cantídio (HUWC) e Hospital Geral de Fortaleza (HGF) - além de escassez
de verba, falta de estrutura e de profissionais. Uma nova audiência foi marcada
para 22 de novembro, em continuidade à discussão do assunto.
Para o procurador da República, Alexandre Meireles Marques, a criação de um
fluxo, para unificar os trabalhos em uma central de regulação, é um passo
importante para a resolução do problema. “Significaria adotar determinados
requisitos para que os pacientes que necessitam da cirurgia ortopédica de alta
complexidade sigam para serem atendidos pelo sistema SUS”, diz.
Ele diz que a medida não vai evitar que as pessoas sigam recorrendo à Justiça,
mas que deve diminuir a fila de espera. “A partir do momento em que as pessoas
forem inseridas na central, a central tem que operacionalizar a fila. Hoje as
filas são compartimentalizadas e estão dentro dos hospitais, sem o conhecimento
da central e sem o conhecimento do gestor”, explica o gerente da Central de
Regulação de Internação de Fortaleza (Cirf), Mozart Ney Rolim.
As discussões sobre o assunto seguem desde 2006, quando foi realizada uma
audiência devido à quantidade de judicializações para alta complexidade em
Fortaleza. Segundo Mozart Ney Rolim, um levantamento indicou que, naquele ano,
das 5.951 pessoas que estavam na fila, 1.989 ainda não tinham realizado
cirurgia, e não foi conseguido contato com outros 3 mil pacientes. E é esse
público que eles incluir na central de regulação. "Quem não conseguir e se
sentir prejudicado, deve procurar a central de regulação, pelo 3452-6949",
orienta.
Material retirado de hospital
Além das audiências, a juíza Cíntia Menezes Brunetta decidiu realizar uma
inspeção judicial no Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), juntamente
com representante do MP, da AGU e da UFC, no último dia 14.
Entretanto, a empresa que estava entregando as órteses, próteses e materiais
especiais (OPME) “recolheu tudo que estava armazenado em seu nome no hospital”,
no fim da tarde do dia anterior, sob alegação de que o contrato havia sido
encerrado, o que, segundo a juíza, não procede.
O objetivo da inspeção era verificar as condições dos serviços, ambiente e
material fornecido para as cirurgias. Durante esse trabalho, a juíza determinou
a compra de próteses somente por valor igual ou inferior à tabela do SUS.
Preço das próteses
O alto preço das próteses, inclusive, é considerado o principal gargalo para o
procurador da República, Alexandre Meireles Marques. “Estamos tentando
solucionar isso com adoção de alguns mecanismos, no sentido de todas as
próteses serem adquiridas pelo valor da tabela SUS”, indica.
“A prótese normalmente é adquirida pelo estado ou município, que compram a um
preço mais caro. A prótese comprada dessa maneira sem licitação é mais cara”,
explica o gerente da Cirf.
No Distrito Federal, as
próteses ortopédicas estão no centro de uma máfia investigada pela Poícia, em
um esquema que inclui superfaturamento de próteses, além de cirurgias
desnecessárias, troca fraudulenta de próteses e uso de material vencido em
pacientes. No início deste mês, 13
pessoas foram presas.
No Ceará, o procurador da República avalia que “não há nada de concreto” sobre
irregularidades do tipo. Sobre a possibilidade de algum superfaturamento
praticado no estado, ele diz que o MP já tem processo de investigação, sem
repassar mais detalhes. “Estamos olhando todas as hipóteses cabíveis, mas
estamos chegando a uma conclusão de que se adquirirmos pela tabela SUS esses
problemas deixarão de existir”, analisa.
Discussões nas audiências
Entre os encaminhamentos já determinados nas audiências estão a adesão de uma
Ata de Registro de Preços do Hospital das Clínicas de Pernambuco, para garantir
um preço mais baixo; viabilização de convênios com outros hospitais, como o
Hospital Fernandes Távora (em Fortaleza), o Hospital São Raimundo (no Crato), e
o Instituto Práxis de Educação, Cultura e Ação Social.
Além do gerenciamento da fila, com atualização do contato de cada paciente e
disponibilização de um número gratuito (0800-2751520) para os pacientes
não encontrados; e de dispor que os hospitais só devem incluir novos pacientes
por meio da central de regulação do Município.