A polícia da França identificou Mohamed Bouhlel, 31, como o terrorista
que matou 84 pessoas, entre elas dez crianças e adolescentes, na quinta-feira
(14) em Nice. Das 202 pessoas feridas, 52 ainda estavam em estado crítico.
Apesar do ataque ter sido comemorado nas redes sociais por grupos
extremistas, os comunicados e publicações da sexta-feira (15) do Estado
Islâmico (EI), por exemplo, não mencionam o massacre. O EI - que desde 2014
controla amplos territórios no Iraque e na Síria - reivindicou vários
atentados, que deixaram dezenas de mortos em França, Bélgica, Estados Unidos e
em países árabes.
O responsável pela tragédia na cidade francesa de Nice, o
franco-tunisiano Mohamed Laouiaej-Bouhlel, teve depressão no início dos anos
2000 e não tinha vínculos com a religião - disse seu pai, na Tunísia. Ele conta
que a família levou o filho ao médico, que lhe prescreveu remédios para lutar
contra essas crises nervosas. O pai também descreve Mohamed como um homem
“sempre sozinho, sempre deprimido” e que não gostava de falar.
Laços com Islã
Os vínculos do autor da matança de Nice com o Islã radical têm sido
investigados com cautela, em meio às versões contraditórias do próprio
governo.
O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, declarou na noite de sexta:
“É um terrorista, sem dúvida, ligado ao islamismo radical, de uma forma ou de
outra”.
O ministro do Interior francês, Bernard Cazeneuve, recusou-se, no
entanto, a confirmar que o homem tivesse ligações radicais.
De cabelos brancos e rosto tensionado, o pai do autor do massacre de 14
de Julho afirmou que sua família na Tunísia quase não tinha contato com ele
desde que foi para a França. Ele não soube indicar quando seu filho partiu. “Quando
ele foi para a França, não soubemos mais dele”, insistiu, acrescentando que
“não tinha vínculo algum com a religião. Ele não fazia a reza, não jejuava,
bebia álcool e até se drogava”, contou. “Também estamos chocados”, desabafou.
Nascido em 31 de janeiro de 1985, em Msaken, subúrbio de Sousse, na
Tunísia, Mohamed Lahouaiej-Bouhlel se casou com uma francesa de origem
tunisiana de Nice, com quem teve três filhos. Segundo o pai, o rapaz “não
estava em bons termos com sua ex-mulher”.
Vítimas
O presidente da França, François Hollande, lamentou na sexta-feira que
entre mortos e feridos no ataque em Nice “há muitas crianças e jovens que
vieram com suas famílias para ver os fogos, para se divertir, e que foram
atropeladas, mortas para satisfazer a crueldade de um indivíduo ou de um
grupo”, afirmou.
Hollande pediu unidade nacional neste momento. “Eu quero da França
coesão para que sejamos mais fortes do que aqueles que fazem o mal. Nós podemos
derrotá-los porque estamos unidos”, afirmou. Ele está em Nice para acompanhar
as investigações sobre o caso. Após o ataque, ele prorrogou o estado de
emergência no país por mais três meses. Além disso, foi decretado luto oficial
de três dias.
Ignorando medidas tomadas há 18 meses, como reforço do efetivo policial
e da inteligência, maiores poderes de investigação para a polícia e a abertura
em breve de um centro de ‘desradicalização’ jihadista, políticos de direita
criticaram a “impotência” do executivo.
Apoio americano
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou na sexta-feira
(15) que a tragédia foi um “ataque terrível à liberdade e à paz”.
“Os corações dos americanos estão com o povo da França”, solidarizou-se
Obama. “Nós devemos a nossa liberdade um ao outro. Comprometemo-nos a nos
juntar a nossos amigos franceses e defendermos nossas nações contra o flagelo
do terrorismo e da violência. Esta é uma ameaça para todos nós”, afirmou o
presidente dos EUA.
Os ataques terroristas dos últimos meses, em vários países, devem ser
mencionados novamente por Donald Trump durante a convenção nacional do Partido
Republicano, que começa na segunda-feira (18).
Na sequência do ataque a Nice, a
imprensa francesa deu destaque ao filme “Bastille Day” (dia da Bastilha),
lançado um dia antes na França. A história de ficção conta um ataque com bomba
em Paris no período do feriado nacional.