O
Senado decidiu ontem por 59 votos pela procedência da acusação da presidente
afastada Dilma Rousseff (PT). Com isso, o julgamento final - do mérito do
processo - será marcado. Eram necessários pelo menos 41 votos. Se fosse
rejeitado, o processo seria arquivado e a petista reassumiria o cargo.
Na própria sessão, a acusação e a defesa foram intimadas para
que oferecessem, no prazo sucessivo de até 48 (quarenta e oito) horas,
respectivamente, o libelo acusatório e sua contrariedade, juntamente com o rol
de até 5 (cinco) testemunhas legais e mais 1 (uma) extranumerária para cada uma
das partes.
O Palácio do Planalto e o presidente do Senado, Renan Calheiros
(PMDB-AL), - o único senador que não votou ontem - atuaram durante todo o dia
para agilizar a votação da chamada pronúncia da presidente afastada, Dilma
Rousseff (PT), fase do processo de impeachment em que se decide se ela irá a
julgamento.
O governo interino orientou os senadores aliados a não “caírem
em provocações” dos defensores de Dilma e incentivou desistências de discursos
para abreviar a sessão.
A estratégia surtiu efeito. Com o avanço célere da sessão, os
juristas responsáveis pela acusação no processo de impeachment, Miguel Reale
Jr. e Janaina Conceição Paschoal, devem protocolar hoje o libelo, peça final da
acusação, sem usar o prazo de 48 horas a que tinham direito.
Assim, será possível iniciar a fase final do processo a partir
de 23 de agosto - o que praticamente garante a votação final do processo ainda
este mês, como deseja o presidente interino, Michel Temer (PMDB).
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Ricardo
Lewandoswki, que assumiu ontem o comando do processo de impeachment, tornou-se
um aliado inesperado, ao impor celeridade à sessão.
A decisão da acusação de antecipar seus prazos vai impactar a
estratégia da defesa. Os advogados da presidente afastada vão ter somente até
esta sexta-feira para apresentar sua contestação à acusação. “Até o início da
tarde será apresentado. É um resumo, uma síntese da acusação. É mera
formalidade” disse Miguel Reale Jr, negando que tenha recebido qualquer pedido
direto do Palácio do Planalto para antecipar a entrega do documentos.
A partir da entrega dos posicionamentos da defesa e da acusação,
Lewandowski terá de marcar a data da última etapa do processo com uma antecedência
mínima de dez dias. Com isso, a expectativa é que ele agende o começo do
julgamento para 23 de agosto. Técnicos que atuam no processo garantem que ele
seguirá os prazos. A ideia inicial do presidente do Supremo era começar o
julgamento no dia 29.
Manobras
Mesmo admitindo pouca chance de vitória, os aliados de Dilma
insistiram em tentativas de protelar o julgamento. Ao mesmo tempo em que
Lewandowski negava os pedidos dos petistas, os senadores Renan Calheiros,
Eunício Oliveira (PMDB-CE) e Aécio Neves (PSDB-MG) atuaram para convencer
aliados a abrirem mão dos discursos.
Eunício conversou com os 19 senadores da sigla e conseguiu um
acordo para que quase todos deixassem de falar. O peemedebista foi chamado ao
Planalto por Temer, no meio da tarde. Ao voltar ao Sendo, propôs que a sessão
terminasse o quanto antes. Nesse esforço, em almoço da bancada do PSDB, ficou
decidido que apenas Aécio falaria.
“Conversamos com os companheiros para tentar acabar com isto o
mais rápido possível. Alguns devem abrir mão de falar e outros falarão por um
tempo mais curto”, afirmou o líder tucano, Cássio Cunha Lima (PB).
O presidente do STF também reduziu a pausa de uma hora, prevista
das 18h às 19h, para apenas meia hora. E desistiu de paralisar a sessão por uma
hora a cada quatro horas de trabalho durante a noite. Paralelamente ao esforço
para agilizar a sessão, Renan defendeu que o julgamento final, última etapa do
processo, não seja interrompido no fim de semana de 27 e 28 deste mês. Afinado
com o Planalto, ele disse que é “obrigatório” prosseguir os trabalhos no fim de
semana.
Delações
premiadas
O sentimento geral entre peemedebistas e tucanos é de apreensão
com as delações premiadas em curso, em especial a da Odebrecht, que pode
atingir o governo interino e alguns dos principais partidos da base. Por isso,
foi deflagrada a operação para acelerar o julgamento. A intenção dos aliados do
governo é concluir o impeachment antes que novas revelações possam comprometer
a permanência de Temer na Presidência.
No PSDB, a possível aprovação do impeachment não tem gerado
alívio. Há uma preocupação cada vez maior com o conteúdo das delações premiadas
que estão por vir. Além da citação a Temer, os vazamentos indicam que parte da
cúpula tucana pode ser fortemente envolvida.
Já o PT irá discutir o “dia seguinte” a partir de hoje. O
ex-presidente Lula está em Brasília para conversar com senadores e deputados do
PT. Os aliados de Dilma analisam a conjuntura política e como o partido deve se
portar nas semanas que antecederão o julgamento final do processo. A presidente
afastada recebe hoje, em almoço no Palácio da Alvorada, parlamentares petistas
para discutir a situação.
Discursos
Embora 34 senadores tenham aberto mão de discursar, as falas já
indicavam o resultado final. Dos 47 que fizeram uso da palavra, 30 se
manifestaram a favor do afastamento definitivo da petista. A defesa e acusação
fizeram considerações por 30 minutos. Falaram o jurista Miguel Reale Jr., um
dos autores do pedido, e o ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.
Dilma é acusada de editar três decretos de créditos
suplementares sem aval do Congresso e de usar verba de bancos federais em
programas do Tesouro, as “pedaladas fiscais”, que custaram em 2015 R$ 72,4
bilhões para serem quitadas.
Julgamento
Os senadores
julgam parecer da Comissão Especial do Impeachment, que recomendou o julgamento
da presidente afastada, por descumprir leis fiscais e orçamentárias, em 2015,
na edição de três decretos de crédito suplementar e nos atrasos em repasses de
subvenções do Plano Safra. O Governo atrasou o repasse de 3,5 bilhões de reais
ao Banco do Brasil para pagamento do programa de crédito agrícola. A prática é
vista como pedalada fiscal (tentativa de maquiagem fiscal).
Etapas
Esta é
a segunda fase do processo de impeachment no Senado. A primeira etapa foi de
admissibilidade do processo, concluída em 12 de maio. Desde então, a Comissão
Especial se dedicou à oitiva de testemunhas e análise de documentos, concluindo
pela existência de provas que justificariam o julgamento. O Plenári vai
analisar o mérito.