centro urbano com
poucas pessoas nas ruas, prédios fechados, queda acentuada no varejo. Esse é o
cenário atual desta cidade, no Vale do Jaguaribe, depois que o maior açude do
Ceará, o Castanhão, passou a enfrentar a mais severa crise hídrica. A economia
local tem por base a produção de pescado (tilápia), que sofreu uma retração de
96%. Os negócios estão paralisados.
A cidade enfrenta
duas crises econômicas: a de caráter nacional e uma de característica local.
Este mês de dezembro, que costuma aquecer as vendas no varejo, vai entrar para
a história como o pior desde quando houve a mudança, em 2003, para a nova
Jaguaribara. "Será um Natal amargo", disse a vendedora de uma loja de
eletrodoméstico, Reginusa Carneiro. Há sete anos na função, nunca deixou de
bater a meta da empresa. "Agora, com certeza, não vai dar".
Desânimo
O clima é de
desânimo e preocupação. Há o temor de que em 2017, a situação se agrave, caso o
Castanhão não receba das chuvas recarga de água. Em fins de fevereiro vindouro,
o reservatório, que acumula 5,17% de sua capacidade, deve atingir o volume
morto.
Depois da mudança
dos moradores e da cheia do açude, em 2004, logo começou a criação de pescado
(tilápia). A atividade prosperou rapidamente, atraindo grandes empresários e
piscicultores locais, que formaram associações. A produção extrapolou o limite
legalmente permitido e chegou a ser estimada em 400 toneladas por mês.
A piscicultura
gerou centenas de emprego e a renda dos trabalhadores e produtores rurais
aqueceu a economia da cidade. O varejo estava em expansão. Porém veio a crise
hídrica. "A produção de pescado é a base da nossa economia, mas hoje o dinheiro
que circula no comércio é proveniente de aposentados e servidores
públicos", disse o secretário de Administração e Finanças do Município,
Wilame Duarte. "O quadro é preocupante", acrescentou.
A Prefeitura também
está paralisada. A arrecadação do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e
Serviços (ICMS) cai com a queda nas vendas. Duarte observa que há pelo menos
oito anos, os negócios provenientes da criação de tilápia se intensificaram e
movimentaram a economia local de forma crescente. "Agora vivemos um
retrocesso. Está tudo paralisado", frisou. A situação agravou-se com a
explosão da agência do Banco do Brasil, há 20 dias, por uma quadrilha. A
unidade foi danificada e os clientes precisam se deslocar cerca de 60
quilômetros para outras cidades (Alto Santo, Jaguaribe) em busca de atendimento
dos serviços bancários. Não há prazo de retorno de funcionamento da agência.
Migração
A secretária da
Associação dos Criadores de Tilápia do Castanhão, Eliane Clemente, foi enfática
ao dizer que: "sem água, a criação de peixe não dá mais e muitos já foram
embora para outros Estados".
Ela frisa que a
renda da cidade depende dos aposentados e servidores públicos. "A
Jaguaribara nova não tem área rural. Praticamente só o núcleo urbano, o entorno
do açude". Os projetos produtivos (criação de bovinos e produção de frutas
não deslancharam. Tudo isso contribui para a crise se agravar.
O piscicultor que
não se mudou para outros açudes fora do Ceará está parado. O pior é que muitos
contraíram financiamento bancário e não têm como pagar os débitos. "É
preciso o governo federal lançar um programa de prorrogação e descontos para os
empréstimos no período de 2012 a 2016, anos de seca. A maioria está
endividada", disse o integrante do Comitê de Bacia do Jaguaribe, Paulo
Landim.
O piscicultor
Emídio de Oliveira foi um dos que saíram do Castanhão. "Estou com
criatório em Itaparica, Pernambuco, mas lá também está secando. Saí com quatro
filhos, a família, em busca de sobreviver e manter a atividade", disse.
A Prefeitura de
Jaguaribara recebia um aporte financeiro do governo do Estado no valor de R$ 96
mil decorrente de compensação definida em um estudo de impacto por causa da
mudança da cidade. "A velha Jaguaribara era pequena, havia menor custo de
manutenção", explicou o secretário Wilame Duarte, mas o governo do Estado
suspendeu, em 2011, o repasse financeiro.
O secretário de
Desenvolvimento Econômico, Turismo e Aquicultura, André Siqueira, disse que
este é o pior momento enfrentado pela piscicultura no Castanhão, desde 2004.
"Houve dois grandes eventos de mortandade e a produção está praticamente
suspensa por falta de água. Daqui a quatro meses, se não chover, o açude não
terá água", frisou.
Turismo
Sem a produção de
pescado, que gerava emprego e renda, a atividade comercial foi afetada. O setor
de serviços também. "Os turistas foram embora e não voltaram, faltam
atrativos", lamentou o empresário José Maria Martins, dono de um
restaurante que é referência local. "Atendia, por semana, a 150 visitantes
e a 30 moradores da cidade, mas hoje não aparecem 30 turistas e os daqui caíram
para cinco. A venda caiu muito", contou.
Sem a produção de
peixe, os representantes comerciais das indústrias de ração não aparecem mais.
Sem água no açude, os turistas sumiram. Resultado: a taxa de ocupação das
pousadas despencou cerca de 80%. "Metade dos funcionários foi demitida e
os apartamentos estão vazios. Restaurantes foram fechados", disse a
gerente de uma pousada, Maria Neuma Araújo. Para a vendedora Fátima Oliveira, o
sonho de uma cidade com emprego e renda decorrentes da produção de pescado e
agropecuária acabou. "Parece que uma tsunami passou por aqui", disse.
Os projetos
produtivos de bovinocultura de leite também foram afetados com a redução
drástica da água para irrigação de capim. O projeto de fruticultura está bem
aquém do estimado.
A cidade de
Jaguaribara nasceu planejada, com ruas largas, avenidas, canteiro central,
ciclovias. Às segundas-feiras ocorre a feira livre. Barracas são armadas no
centro e moradores e vendedores quebram o esvaziamento que ocorre diariamente.
Nos outros dias, a impressão que se tem é de que é um feriado prolongado. As
lojas permanecem vazias, os vendedores de braços cruzados assistem às horas
passar, esperando pelos clientes que custam em não aparecer.