Na sala que é
aberta apenas por servidor autorizado do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará
(TRE-CE), a quantidade de material de propaganda eleitoral apreendido por irregularidade
ainda não é grande. Entre bandeiras e caixas espalhadas pelo chão, a maior
parte do espaço, montado no Fórum Eleitoral Péricles Ribeiro, na Praia de
Iracema, ainda está vazia. O pequeno montante de apreensões não sinaliza que a
Justiça Eleitoral não tem recebido denúncias, mas é um dos indicativos de que,
dentre as queixas que chegam para serem apuradas, muitas são improcedentes.
As razões para
isso, segundo representantes da própria Justiça Eleitoral, vão da desinformação
de alguns denunciantes a diferenças de interpretação do que diz a lei. De
acordo com o TRE-CE, nas duas primeiras semanas de campanha, que teve início no
dia 16 de agosto, das 168 ligações recebidas pelo Disque Eleitor (148) na
Capital, por exemplo, apenas 34 ficaram caracterizadas como irregularidades.
Quem acompanha as apurações, contudo, afirma que o número elevado de denúncias
improcedentes não atrapalha o trabalho de fiscalização.
"Pelo
contrário, ajuda a todos nós. O cidadão não só tem o direito, tem a obrigação
de participar da sociedade como um todo, inclusive denunciando", ressalta
o juiz da 116ª Zona Eleitoral José Krentel, um dos responsáveis por julgar
casos de propaganda eleitoral irregular em Fortaleza.
A juíza da 28ª Zona
Eleitoral Jane Ruth Maia de Queiroga, coordenadora da Propaganda Eleitoral e do
Poder de Polícia na Capital, já havia informado, em entrevista ao Diário do
Nordeste de 13 de agosto, que 52 servidores da Justiça Eleitoral estão
envolvidos na fiscalização das denúncias durante esta campanha, incluindo 16
fiscais que vão a campo averiguar as queixas.
Caio Guimarães,
assistente da Corregedoria Regional Eleitoral, admite que as equipes "às
vezes perdem muito tempo" com denúncias improcedentes, mas ressalta que
"isso faz parte do nosso trabalho".
"Infelizmente,
em alguns casos, (os fiscais) se deparam com propagandas que não são
irregulares, mas isso faz parte do trabalho. Temos que dar esse retorno à
população e nos dirigirmos a praticamente todas as solicitações. Não podemos
fazer juízo de valor antecipado, se é ou não é propaganda. A equipe realmente
tem que comparecer, fazer o auto de constatação, e aí o juiz, com aquele auto,
decide se não é caso de propaganda irregular".
Esclarecimento
As denúncias
partem, na maioria das vezes, de eleitores, candidatos, partidos ou coligações.
José Krentel atribui as queixas improcedentes de cidadãos comuns ao "pouco
conhecimento da matéria", o que, segundo ele, não ocorre em relação a
candidatos, partidos e coligações. "Aí não é mais desconhecimento. É por
entender que aquele fato é irregular e a Justiça Eleitoral concluir de forma
diferente, julgar que não é irregular", diferencia.
Mas, se ainda falta
informação sobre as regras de propaganda eleitoral, especialmente após as
mudanças da minirreforma na legislação em 2015, Caio Guimarães ressalta que a
Justiça Eleitoral busca levar esclarecimentos ao eleitor. Segundo ele, as
equipes de fiscalização têm distribuído material impresso com tipos de
propaganda, detalhando quais são permitidos e proibidos pela lei. Na internet,
as informações estão disponíveis no site do TRE-CE.
Nos primeiros 20
dias de campanha, segundo o TRE-CE, a Justiça Eleitoral registrou, no Ceará,
819 denúncias feitas por formulário disponibilizado na internet, pelo Disque
Eleitor e nos próprios cartórios eleitorais. Em Fortaleza, dentre 168 queixas
apuradas, foram ajuizadas 46 representações perante a Comissão da Propaganda
Eleitoral e do Poder de Polícia, constituída por quatro zonas eleitorais.
O assistente da
Corregedoria, no entanto, esclarece que o número baixo de representações não
significa que todas as denúncias restantes foram consideradas improcedentes.
Isso porque, em alguns casos, destaca ele, "a própria fiscalização já
resolve". "O candidato é autuado e, se regularizar em 48 horas, na
maioria das vezes não é necessário entrar com um procedimento".
O número de
representações ajuizadas até agora também diminuiu em comparação com o pleito
municipal de 2012. Segundo o TRE-CE, nas primeiras duas semanas da campanha
passada já eram 221 representações, enquanto que no mesmo período deste ano
eram só 30. Para Caio Guimarães, algumas das novas regras, como o tempo de
campanha reduzido pela metade e a limitação dos gastos dos candidatos na
disputa, têm contribuído para a queda de representações.
"Você encontra
uma quantidade menor de irregularidades, porque a maior quantidade de
irregularidades eram os cavaletes, a pintura em muro, que foram
proibidos", exemplifica. "Diminuíram os valores disponíveis, então os
candidatos estão fazendo a sua propaganda em meios gratuitos", conclui.