Mortes anunciadas e
evitáveis. Assim são definidos pelos pesquisadores do Comitê Cearense pela
Prevenção de Homicídios na Adolescência - da Assembleia Legislativa do Ceará -
os assassinatos de crianças e adolescentes ocorridos em Fortaleza, em 2015. Dos
429 homicídios juvenis, o Comitê entrevistou, neste semestre, 144 famílias das
vítimas. Das famílias pesquisadas, em 60% dos casos, os jovens foram ameaçados
antes de morrerem. Ou seja, a cada 10 adolescentes mortos, seis já sabiam que
corriam risco iminente.
Criado em dezembro
de 2015, o Comitê, que é uma organização coordenada pelo Fundo das Nações Unidas
para a Infância (Unicef) no Ceará e pela Assembleia Legislativa, contratou 24
pesquisadores que foram a campo buscar informações sobre os contextos de vida e
morte dos jovens vítimas de homicídios em Fortaleza e em outras seis cidades do
Ceará: Horizonte, Sobral, Juazeiro do Norte, Maracanaú, Caucaia e Eusébio.
Ao todo, 475
famílias vitimadas pelas mortes foram procuradas nestes sete municípios. Do
total, 263 foram entrevistadas, sendo 144 em Fortaleza. Os pesquisadores
ouviram ainda 122 adolescentes que cumpre medidas socioeducativas por terem
praticado atos infracionais análogos a homicídios e latrocínios.
"Essas mortes
são evitáveis e elas dão sinais. Nesse contexto, temos adolescentes que
sofreram tentativa de homicídios, às vezes, mais de uma vez, além de ameaças.
São sinais de que aquela morte se anuncia e a política pública tem condições de
detectar", explicou o sociólogo e coordenador da pesquisa, Tiago de
Holanda, ontem durante a divulgação, na Assembleia Legislativa, do relatório
preliminar sobre as mortes juvenis em 2015.
Informações
O coordenador do
Unicef em Fortaleza, Rui Aguiar, explica que os conflitos entre gangues e rixas
foram os principais motivadores dos homicídios de jovens em Fortaleza, no ano
passado. Porém, ressalta ele, "os adolescentes não estão sendo mortos por
outros adolescentes. Essas mortes integram o grande quadro de violência da
cidade e a investigação de homicídios de adolescentes caminha em uma velocidade
muito lenta. Não há informação sistematizada em nenhuma instância que
procuramos".
Rui alertou ainda
que atualmente o Comitê sequer tem informação de quantos - do total de 429 -
homicídios contra adolescentes estão sendo investigados em Fortaleza. No
segundo semestre, o Comitê deverá buscar dados junto à Polícia e ao Judiciário
e cruzar essas informações para responder algumas destas questões e formular
recomendações de políticas públicas que serão entregues ao governador Camilo
Santana e aos 184 prefeitos cearenses. O prazo para a conclusão do trabalho do
Comitê está indefinido, mas segundo Rui, ocorrerá neste ano, antes ou após as
eleições municipais.
O secretário de
Juventude do Ceará, David Barros, esteve presente na Assembleia e ressaltou que
o trabalho do Comitê "já identificou a necessidade de políticas
territoriais e de elevação da escolaridade". Segundo ele, tendo em vista
essa constatação, o Governo já vem agindo em cima de cenários específicos.
David disse ainda que "a partir do acesso ao relatório completo, a gestão
terá condições de pensar uma atuação mais estratégica".