O presidente
Michel Temer disse na noite desta terça-feira (20) que, embora a Câmara dos
Deputados tenha aprovado a renegociação das dívidas estaduais sem exigências do
governo, a União vai cobrar as contrapartidas para aprovar o pacote de socorro
aos estados em situação financeira delicada.
A resposta de
Temer à derrota imposta pela Câmara foi dada em um vídeo gravado pelo
presidente e divulgado na noite de terça-feira.
“Hoje ainda a
Câmara Federal aprovou um projeto, e lá havia [...] estas contrapartidas que
foram retiradas, embora se mantivesse a tese e o preceito da recuperação
fiscal. Mas isso não significa que a União, quando firmar o contrato com os
estados, não irá exigir essas contrapartidas. Elas serão indispensáveis para
que se viabilize a recuperação fiscal prevista na lei que hoje foi aprovada”,
afirmou o presidente.
A votação do pacote de ajuda aos estados representou uma derrota para a
equipe econômica do governo.
A Câmara dos
Deputados aprovou na tarde desta terça, por 296 votos a 12 e três abstenções, o
projeto que renegocia dívidas dos estados e do Distrito Federal com a União. A
proposta aprovada, que agora vai à sanção presidencial, aumenta em até 20 anos
o prazo para o pagamento de dívidas de estados e do Distrito Federal com a
União. Aos estados que enfrentam crises financeiras mais graves, como Rio de
Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, o texto permite que o pagamento das
dívidas seja suspenso por até três anos (leia detalhes mais abaixo).
Retirada das contrapartidas
A aprovação do
projeto passou por um acordo, costurado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia
(DEM-RJ), pelo qual foram retiradas do projeto as contrapartidas defendidas
pelo governo federal que deveriam ser cumpridas pelos governos estaduais para
participar da renegociação de débitos, entre as quais aumento da contribuição
previdenciária de servidores estaduais, reajustes salariais de servidores e
proibição da criação de novos cargos.
O texto já
havia sido aprovado pela Câmara em uma primeira votação, mas, ao passar pelo Senado, foi alterado para acrescentar as contrapartidas,
acertadas entre o líder do governo no Senado, Aloysio Nunes (PSDB-SP), e o
ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.
Como foi
alterado pelos senadores, o projeto precisava passar por nova votação na
Câmara.
Depois da
sessão, Rodrigo Maia afirmou que a votação não foi contra o governo. Antes, ele
já havia afirmado que a Câmara não precisa “dizer amém” ao Ministério da Fazenda.
“Os técnicos da Fazenda sempre querem mais, sempre querem um arrocho maior. Só
que a crise que o país vive não foi vista nem na Primeira Guerra Mundial.
Então, não dá que os técnicos da Fazenda, o pessoal do mercado financeiro, que
têm um coração que não bate com a emoção, não dá que eles ganhem tudo”, disse
Maia após a aprovação da proposta.
Líder do governo ausente
Vários
deputados criticaram a atitude do líder do governo na Câmara, André Moura
(PSC-SE), que se ausentou da discussão, mas esteve no plenário no momento de
registrar o voto.
O presidente da
Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), chegou a dizer que Moura estava pedindo a
parlamentares da base não registrarem presença na votação.
Ao iniciar a
sessão, Rodrigo Maia disse que a Casa não precisava dar “amém” às exigências do
Ministério da Fazenda. Segundo o deputado, “se o presidente entender que [a
proposta] não é o melhor para o Brasil, ele veta”.
Parlamentares
da oposição estavam obstruindo a votação, mas mudaram de posicionamento depois
que o relator do projeto, Espiridião Amin (PP-SC), retirou pontos do texto em
acordo com o líder do PT, Afonso Florence (BA).
Depois da
aprovação da proposta, André Moura disse que o projeto não significa uma
derrota do Ministério da Fazenda e que será uma derrota para os estados se eles
não aproveitarem a renegociação para equilibrar as contas.
“Eu estava no
Ministério da Fazenda negociando. Por isso, não estive na discussão da
proposta. Não dá para estar em dois lugares ao mesmo tempo, não sou
onipresente”, justificou.
O projeto
A proposta
aprovada aumenta em até 20 anos o prazo para o pagamento de dívidas de estados
e do Distrito Federal com a União.
Estados que
assinarem termos aditivos para prorrogar o pagamento das dívidas deverão
estabelecer um teto para os gastos públicos, correspondente à inflação do ano
anterior, nos dois primeiros anos após o fechamento do acordo.
Aos estados que
enfrentam crises financeiras mais graves, como Rio de Janeiro, Minas Gerais e
Rio Grande do Sul, o texto permite que o pagamento das dívidas seja suspenso
por até três anos.
Na prática,
esses estados terão um alívio fiscal por três anos e depois ainda terão 20 anos
para quitar os débitos com a União. No caso do Rio de Janeiro, a estimativa é
de que esse alívio seja de R$ 7 bilhões ao ano.
Para viabilizar
a aprovação do projeto, o relator Espiridião Amin aceitou retirar várias
exigências que deveriam ser cumpridas pelos estados, entre as quais:
·
criação de
programas de desestatização de empresas estaduais;
·
elevação da
contribuição previdenciária para 14% no mínimo;
·
redução de incentivos
tributários a empresas;
·
suspensão de
reajustes salariais de servidores estaduais.
O relator
também retirou proibições para criação de cargos, aumento para servidores que
levem ao crescimento de despesas, contratação de pessoal e realização de
concursos públicos.
Em acordo com
petistas, Amin aceitou retirar o financiamento pela União de programas de
demissão voluntária em empresas estatais.
Para os
petistas, isso estimularia empresas a realizar demissões voluntárias “forçando
empregados a se voluntariarem”. Já Amin disse que a retirada não impedirá que
estados realizem programas de demissão voluntária e, se isso acontecer, não
haverá financiamento para garantir os direitos dos servidores que se demitirem.
Amin também
retirou a punição de reclusão de um a quatro anos para gestores que
descumprirem regras previstas no regime de recuperação fiscal.
De acordo com a
proposta aprovada, caberá ao Ministério da Fazenda aprovar e a instaurar o
plano de recuperação fiscal. A pasta deverá verificar se existem condições
necessárias para a homologação da recuperação.
Um parlamentar
contrário à proposta, que preferiu falar em anonimato, disse que o texto não
resolve os problemas dos estados. “Empurramos a crise dos estados para daqui a
três anos. Foi isso que fizemos”, declarou.