No judô, a
premiação é feita com os atletas de pés descalços para não machucar o tatame,
onde é montado o pódio. Era dessa forma, com os pés nus, que a judoca Rafaela
Silva costumava percorrer as vielas da Cidade de Deus, comunidade onde nascera
há 24 anos, no Rio. E foi a poucos quilômetros dali, na Barra da Tijuca, ontem,
que aquela garotinha, tida como agressiva demais e que sonhava ser jogadora de
futebol, mostrou que finalmente cresceu e expôs ao mundo seu valor: é a mais
nova campeã olímpica brasileira no judô, a segunda mulher a alcançar esse
feito, repetindo Sarah Menezes, campeã em Londres-2012.
É dela também a
primeira medalha de ouro do Brasil no evento sediado em casa, na categoria até
57Kg. E esse sonho dourado não poderia estar em melhores mãos, pertence agora a
uma carioca da gema, brasileira como milhões de outras, mas com um punhado mais
de sorte.
"Para todos
que me criticaram, que falaram que eu era uma vergonha para minha família, que
não tinha capacidade para estar numa Olimpíada, que era para estar numa jaula,
mostrei que hoje posso dar alegria para meus pais", declarou, após finalizar
sua campanha vitoriosa na grande final contra a lutadora da Mongólia Sumiya
Dorjsuren, em combate que incendiou de alegria a Arena Carioca 2, no Parque
Olímpico.
Desabafo
Rafaela fez o
desabafo discreto se dirigindo a um grupo de internautas que a ofendera, em
uma rede social, após a eliminação na Olimpíada de Londres-2012. À época, ainda
abalada pela derrota para a húngara Hedvig Karakas - de quem também venceu
nessa segunda-feira no caminho para ouro -, ela não soube manter os nervos no
lugar. A hiperatividade da menina de 5 anos, que chamara a atenção do sensei
Geraldo Bernardes para ser canalizada no judô, tinha lhe traído.
"Eu tinha uma
agressividade diferente, gostava de subir muro, pegar pipa, queria utilizá-la
para o judô", conta, relembrando uma infância vivida no meio dos meninos,
jogando futebol, brincando e brigando com e contra eles. "Desde pequena
cresci me superando e acho que isso foi fundamental na minha conquista",
afirmou, na coletiva de imprensa, após a consagração.
Ontem, entretanto,
a cada luta que ia sendo superada, Rafaela mantinha a mesma expressão, um olhar
vidrado, não de quem está alheio a tudo, mas sim o contrário: era o semblante
de quem está extremamente concentrado, sabendo exatamente o que fazer.
A energia emocional
estava toda transferida para a Arena Carioca 2. Enquanto o ginásio quase ia
abaixo, com a torcida batendo os pés nas arquibancadas ao entoar
"Olê-lê-Olá-lá, a Rafa vem aí e o bicho vai pegar", ela permanecia
impassível.
Até mesmo quando os
apoiadores na arena ficaram ensandecidos, exigindo uma pontuação que não foi
confirmada após queda imposta pela brasileira na rival, ela não pareceu se
alterar.
"A torcida me
ajudou bastante, o ginásio chegou a tremer, eu vi que minhas adversárias
sentiram a pressão e eu não podia decepcionar todas as pessoas que vieram
torcer por mim aqui dentro da minha casa", disse ela.
No fim, com seu
nome gravado na história, finalmente veio o choro de Rafaela. Ela foi
imediatamente em direção ao treinador, Mário Tsutsui, a quem deu um longo
abraço emocionado, e em seguida, rumo aos familiares, presentes no ginásio para
dar todo o apoio que não tivera há quatro anos, em Londres.
Exemplo
A carioca foi
acompanhada na emoção pela torcida brasileira ao derramar novas lágrimas no
lugar mais alto do pódio, condição na qual, afirma, gostaria muito de ver
vizinhos e amigos em breve. "É muito bom poder mostrar para as crianças
que alguém que saiu da Cidade de Deus também pode acreditar nos seus sonhos,
que eles podem se realizar", finalizou a nova "menina de ouro"
brasileira.