Preso ontem pela
Polícia Federal, o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) ainda mantinha
"influência nos seus correligionários, tendo participado de indicações de
cargos políticos do governo Temer", segundo procuradores da República da
Operação Lava-Jato.
O deputado cassado
chegou à sede da PF em Curitiba, em uma viatura descaracterizada, sob vaias de
manifestantes e uma intensa movimentação de jornalistas ontem por volta de
17h05 (horário de Brasília). O ex-poderoso presidente da Câmara passou sua
primeira noite na prisão da Lava-Jato. Na carceragem da PF também estão o
empreiteiro Marcelo Odebrecht, capturado em 19 de junho de 2015 e agora
negociando delação premiada, o doleiro Alberto Youssef e outros personagens da
Lava-Jato.
Eduardo Cunha ficou
isolado e hoje será levado ao Instituto Médico Legal para exames de corpo de
delito, uma praxe policial para verificação do estado de saúde do prisioneiro.
O advogado Ticiano Figueiredo, que integra o núcleo de defesa do ex-deputado,
esteve na PF.
O peemedebista foi
preso por volta de 13h15 (horário de Brasília), na garagem do edifício
localizado na 316 Sul, Bloco B, em Brasília. Eduardo Cunha estava acompanhado
de um advogado retirando objetos pessoais.
Poder não diminuiu
Os procuradores
dizem que o poder político de Cunha não diminuiu após ter deixado a Câmara.
Segundo a força
tarefa, durante o período em que o parlamentar foi investigado, ele "não
poupou esforços para embaraçar as investigações". Também teria se
utilizado de "parlamentares laranjas para tomar medidas que visavam o
favorecimento pessoal", os quais "apresentavam falsas justificativas
de um pretenso interesse público para legitimar os atos de obstrução".
Na petição
encaminhada ao juiz federal de Curitiba (PR) Sérgio Moro, os procuradores
argumentam que a prisão era necessária para impedir que Cunha continuasse a
operar contra a investigação. Citaram como exemplo a nomeação de um aliado de
Cunha, Maurício Quintella (PR-AL), como ministro dos Transportes, Portos e
Aviação Civil, no dia 12 de maio passado, logo após a posse do então presidente
interino, Michel Temer (PMDB-SP). "Quintella havia votado em favor de
Eduardo Cunha no Conselho de Ética", afirmaram os procuradores.
Em sua decisão,
Moro afirma que "os episódios incluem encerramento indevido de sessões do
Conselho de Ética, falta de disponibilização de local para reunião do Conselho
e até mesmo ameaça sofrida pelo relator do processo".
Sem motivações
Em nota enviada por
seus advogados, Cunha alegou que sua prisão é uma "decisão absurda" e
sem motivações, "utilizando-se dos argumentos de uma ação cautelar extinta
pelo Supremo Tribunal Federal (STF)".
O advogado Ticiano
Figueiredo disse que os policiais federais que prenderam o ex-deputado
"foram extremamente educados". "Por óbvio, (o ex-deputado) ficou
sabendo que havia mandado (de prisão) contra ele. Na sequência, um advogado
nosso em Brasília deslocou-se até o apartamento (na Asa Sul). Imediatamente, chegaram
os policiais". Figueiredo contou que "educadamente os policiais
esperaram (Eduardo Cunha) guardar suas coisas".
"Todos os
factoides que ele (Cunha) estava em uma padaria na Asa Norte e que tentaria
fugir não são verdade. Eduardo Cunha não foi algemado em momento algum",
ressaltou.
Histórico
Eleito presidente
da Câmara em fevereiro de 2015, Eduardo Cunha foi um dos mais poderosos
políticos dos últimos anos, tendo desempenhado papel central no processo que
resultou no impeachment de Dilma Rousseff. No auge de sua gestão, contava com o
apoio explícito da grande maioria dos deputados.
Sua derrocada se
deu devido às suspeitas de envolvimento no petrolão, o que resultou no seu
afastamento do mandato e da presidência da Câmara em 5 de maio, por decisão
unânime e inédita do STF. Em setembro, ele teve o mandato cassado com 450 votos
de seus 512 colegas.