No Ceará, a taxa de ocupação do sistema
prisional chegou a 189% em dezembro de 2014. Isso significa que, com população
prisional aproximada de 21.648 detentos e 11.476 vagas, existe um déficit de
10.172 vagas (89%), o que provoca superlotação nas delegacias e presídios.
Esses resultados constam do relatório do Levantamento Nacional de Informações
Penitenciárias (Infopen), relativo a dezembro de 2014, divulgado nesta
terça-feira (26), em Brasília. O estudo traz informações sobre a população
carcerária e estabelecimentos prisionais do país, estados e Distrito Federal.
Elaborado pelo Departamento Penitenciário Nacional
(Depen) do Ministério da Justiça, o estudo mostra que a população penitenciária
do Ceará somou 21.648 pessoas em dezembro de 2014, das quais 20.583 são homens
e 1.065, mulheres. No Brasil, o número de presos chegou a 622.202 pessoas em
dezembro de 2014.
Do total, 17% cumprem a pena em regime fechado, 8% em regime semiaberto, 1% no aberto e também 1% em regime de segurança/internação. Pelo código penal brasileiro, as penas restritivas de liberdade podem ser cumpridas em regime fechado, semiaberto ou aberto. Já os condenados considerados portadores de doença mental devem ser recolhidos a um hospital de custódia para receber tratamento psiquiátrico (nesse caso ficam internados) ou receber tratamento ambulatorial (sem privação de liberdade).
Em dezembro de 2014, a maioria dos presos cearenses era provisórios (72%), ou
seja, pessoas que foram acusadas de um crime e estavam presas à espera do
julgamento. Segundo o diretor-geral do Depen , Renato De Vitto, há um
"excessivo uso da prisão provisória" no Brasil.
Sejus
De acordo com a Secretaria de Justiça do Ceará, o número de cerca de 21
mil pessoas refere-se ao total de pessoas em cumprimento de pena, incluindo os
recolhidos e aqueles que já saíram da unidade prisional, mas permanecem
cumprindo pena (regime aberto, semiaberto, prisão domiciliar). Em 2016, segundo
a Sejus, cerca de 17 mil pessoas estão recolhidas.
A Sejus informa, ainda, que duas unidades serão
inauguradas serem este ano, que somarão cerca de 1.500 vagas. Além disso, a
Secretaria está trabalhando pelas alternativas de desencarceramento,
firmando parcerias para mutirões de atendimento e apoiando a audiência de
custódia. Por fim, a Sejus informa que o Tribunal de Justiça do Ceará instituiu
grupo para dar celeridade aos julgamentos de presos provisórios, o reduzir o
número de presos provisórios.
Maioria
de negros com baixa escolaridade
O perfil socioeconômico dos detentos cearenses mostra que 54,26 têm entre 18 e
29 anos, 81,68% são negros e 87,68% têm até o ensino fundamental
completo. No Brasil, 55% dos presos têm entre 18 e 29 anos, 61,6% são negros e
75,08% têm até o ensino fundamental completo.
Para os especialistas, manter os jovens na escola
pelo menos até o término do fundamental pode ser uma das políticas de prevenção
mais eficientes para a redução da criminalidade e, por conseguinte, da
população prisional.
Situação
de risco
Segundo dados do Ministério da Saúde, pessoas privadas de liberdade têm, em
média, chance 28 vezes maior do que a população em geral de contrair
tuberculose. A taxa de prevalência de HIV/Aids entre a população
prisional era de 1,3% em 2014, enquanto entre a população em geral era de
0,4%.
No Ceará, a taxa de doenças transmissíveis por 10 mil pessoas presas no segundo
semestre de 2014, aponta que a tuberculose tem prevalência entre a
população carcerária, com taxa de 103,27%, seguida de HIV (20,84%) e sífilis
(18,99%). Em 2014, a taxa de mortalidade criminal (óbitos resultantes de
crimes) era de 110,11 por 100 mil habitantes, enquanto entre a população em
geral, a taxa era de 29,1 mortes por 100 mil habitantes.
Brasil
Com o total de 622.202 pessoas privadas de liberdade, o Brasil tem a quarta
maior população penitenciária do mundo, atrás apenas de Estados Unidos
(2.217.000), China (1.657.812) e Rússia (644.237). Entre os detentos
brasileiros, 40% são provisórios.O Brasil tem déficit de 250.318 vagas, de
acordo com o levantamento.
Sobre a natureza dos crimes pelos quais estavam presos, 28% dos detentos
brasileiros respondiam ou foram condenados por crime de tráfico de drogas, 25%
por roubo, 13% por furto e 10% por homicídio.
Em relação à taxa de encarceramento geral (número de pessoas presas por grupo
de 100 mil habitantes), o Brasil encontra-se na sexta colocação mundial, com
uma taxa de 306,2 detentos por 100 mil habitantes, ultrapassada apenas por
Ruanda, Rússia, Tailândia, Cuba e Estados Unidos.
Para o diretor do Depen, o crescimento constante da população carcerária no Brasil preocupa. Segundo ele, em 25 anos o número de pessoas privadas de liberdade saltou de 90 mil para 622 mil. Em 2004, a taxa brasileira era de 135 presos por 100 mil habitantes. Se considerada apenas a taxa de encarceramento feminino, saltou de 13,58 em 2005 para 32,25 detentas por 100 mil habitantes.
O diagnóstico aponta ainda que, se considerado o número de pessoas que entraram
e saíram do sistema penitenciário nacional ao longo de 2014, pelo menos um
milhão de brasileiros vivenciaram a experiência do encarceramento, no período
de um ano.