Todos os
trabalhadores brasileiros que ainda não se aposentaram deverão sofrer impactos
da proposta de reforma da Previdência, que será encaminhada pelo governo de
Michel Temer ao Congresso Nacional ainda neste mês. As mudanças são
consideradas prioritárias pelo Palácio do Planalto, que entende serem
inevitáveis para que o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) e os
regimes próprios do poder público permaneçam sustentáveis nos próximos anos.
Entre as alterações
previstas mais polêmicas da proposta que será enviada pelo governo federal,
está o estabelecimento de uma idade mínima para que os trabalhadores se retirem
do mercado, de 65 anos para os homens e para as mulheres, que já vão passar a
valer para os contribuintes ativos quem tem até 50 anos de idade. Quem já tem
mais de 50 deverá passar por uma regra de transição que pode durar até 15 anos,
pagando um "pedágio" de até 50% do tempo que resta para se aposentar.
Conforme o texto elaborado pelo governo, a idade de transição para professores
e mulheres não seria de 50 anos, mas de 45 anos. Já o tempo de contribuição
teria peso para o valor do benefício
Na avaliação de
Gisele Kravchychyn, diretora do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário
(IBDP), é preocupante que essas mudanças estejam sendo propostas com o enfoque
apenas no ajuste fiscal tão almejado pelo novo governo.
"Nossa
preocupação se dá por conta de vários indícios de mais retirada de direitos
adquiridos. A equipe econômica do governo está influenciando muito uma decisão
que deveria ser técnica, de profissionais da previdência", observou sobre
o tratamento dado ao tema.
Debate social necessário
A diretora alerta
sobre a ideia de igualar a idade de aposentadoria de homens e mulheres, sob
justificativa de que as beneficiárias do sexo feminino viveriam por mais tempo.
"É um ponto bem controverso. Há um reconhecimento de toda a sociedade de
que a mulher tem uma dupla jornada, uma no trabalho e outra em casa. Pode ser
que eventualmente a realidade seja diferente, mas é preciso realizar um debate
social", defende.
Gisele pondera
ainda que o estabelecimento de uma idade mínima iria prejudicar a
principalmente a população de baixa renda, que tem nos trabalhos braçais ou que
exigem grande esforço físico como as únicas opções para ganhar a vida.
"Quem tem uma
ocupação mais braçal não vai conseguir chegar aos 60 anos trabalhando. Quem tem
um trabalho mais intelectual, não necessariamente é afetado por conta da idade.
Aumentar dez anos para se aposentar vai pegar quem começou a trabalhar mais
cedo e não tem qualificação", destaca a diretora do IBDP.
Discussão
A diretora destaca
que, o principal passo a ser dado pelo governo é a centralização e apresentação
das suas ideias para que a sociedade possa discuti-las. "Não se pode
tentar passar uma proposta com tamanho impacto a toque de caixa, como uma
medida de ajuste fiscal imediato", realçou Gisele. "Essa decisão tem
que ser tomada com a participação efetiva da sociedade", complementou.
No mesmo tom de
preocupação, Regina Jansen, presidente da Comissão de Direito Previdenciário e
Assistência Social da Ordem dos Advogados do Brasil - Secção Ceará (OAB-CE),
aponta que a medida não será bem vista pela população.
"Com esse
fundamento em ajuste, estamos sofrendo desde já restrição de direitos e
garantias", afirmou, apontando que o Conselho Federal da OAB deverá
apresentar propostas nesse âmbito em breve.
Recursos de fora
Ela destaca que o
próprio cálculo do rombo da Previdência, estimado em R$ 181,2 bilhões em 2017
pela equipe econômica do governo, não leva em conta todos os recursos que
compõem a Seguridade Social. "Não se pode dissociar o orçamento da Saúde e
da Assistência Social, ambos fazem parte da Seguridade Social. Ele (o governo
federal) desvincula a despesa da aposentadoria, mas todo o aspecto da
arrecadação não é repassado", alerta.
Já o economista
Mauro Rochlin, professor dos MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV), destaca que
a reforma da previdência possibilitará a mudança estrutural nas despesas do
governo. "Contudo, será necessária articulação política no Congresso
Nacional para mudar aquilo que é preciso. O fluxo de aprovação das medidas
dependerá dessa articulação", explica.