Após um processo
que durou mais de dez meses, a Câmara dos Deputados decidiu, ontem, por 450
votos contra 10 contrários e 9 abstenções, cassar o mandato de deputado de
Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ex-presidente da Casa. Dentre os votos a favor dele,
estão os de Paulinho da Força (SD-SP) e Marco Feliciano (PSC-SP)
O caso foi marcado
por protelações desde o ano passado. Cunha era formalmente acusado na Câmara de
mentir aos colegas ao negar, em março de 2015, ter "qualquer tipo de
conta" no exterior - frase dita meses antes de vir à tona a existência de
dinheiro atribuído ao peemedebista na Suíça.
Em discurso, Cunha
afirmou "pagar o preço" por ter autorizado a tramitação do processo
de impeachment de Dilma Rousseff da presidência. "O PT quer um troféu para
dizer que é golpe", ressaltou. Cunha já estava afastado do mandato. Com a
decisão da Câmara, fica inelegível até janeiro de 2027.
Numa rápida
entrevista após o resultado, Cunha prometeu escrever um livro sobre o
impeachment e contar diálogos que teve ao longo desse processo. "Não tenho
nada a revelar sobre ninguém. No dia que tiver, eu o farei", declarou.
O plenário entendeu
que Cunha mentiu em depoimento à CPI da Petrobras, em maio de 2015, quando
disse não possuir contas no exterior. Ele negou que tenha mentido à CPI,
argumentando que as contas estão no nome de um trust.
Momentos antes de
ver seu destino político ser chancelado no plenário da Câmara, Cunha fez um
discurso forte em que afirmou estar sofrendo um "processo político"
por dar continuidade ao impeachment de Dilma Rousseff (PT), negou ter contas na
Suíça e ameaçou colegas: "Amanhã é contra vocês".
Decisão tomada
Em uma defesa de
pouco mais de trinta minutos, Cunha fez um apanhado da tramitação de processos
contra ele e a petista e disse que deputados não queriam ouvir "qualquer
argumento", pois estavam "com a decisão tomada". Segundo Cunha,
"ninguém conhece" uma peça que tem sete mil páginas.
Mesmo assim, pediu
que seus colegas o julgassem "com isenção", pois ele estava
"pagando o preço" por "livrar" o país do PT. "Por mais
que o PT chore, esse criminoso governo foi embora graças à atividade que foi
feita por mim", disse Cunha.
"Alguém tem
dúvida que se não fosse minha atuação teria impeachment? Duvido que tenha. Essa
é a razão da bronca do PT e de seus assemelhados ou seus asseclas, que vivem na
sua órbita", sustentou.
Para o
ex-presidente da Câmara, o mandato estava sendo cassado por motivos
"risíveis" e que isso abriria precedente para que "qualquer
deputado" perca o mandato por acusações, segundo ele, frágeis. O
peemedebista disse que, na média, 160 deputados respondem a acusações.
"Amanhã será
com vocês também", ameaçou. "A peça de acusação do Ministério Público
não pode servir como quebra de decoro", defendeu-se. "Quero saber
cadê a conta, cadê o número da conta?", completou.
O Ministério
Público pediu abertura de inquérito contra Cunha por haver dinheiro dele em
contas na Suíça irrigadas pelo desvio de recursos na estatal.