O caso de estupro coletivo no Rio de
Janeiro, no qual uma jovem de 16 anos foi violentada sexualmente por 33 homens,
gerou comoção nacional e reabriu a discussão sobre a cultura deste tipo de
crime no País. Lá, foi uma abusada por 33; cotidianamente, são tantos outros
casos. Em casa, na igreja, na festa, na escola… Não há divisão por local ou
classe social. E há um potencial agravante para a vulnerabilidade ao crime de
estupro: ser mulher.
No Ceará, em 2015, a cada seis horas,
houve um caso de estupro. No ano passado, 1.580 pessoas foram vítimas de
violência sexual no Estado — 86% são do sexo feminino. São cerca de quatro
pessoas vítimas por dia. Desse número, quase 80% são crianças e adolescentes;
e, dentro deste percentual, há mais vítimas com faixa etária de zero a 11 anos.
Os dados foram levantados pela Secretaria Estadual da Segurança Pública e
Defesa Social (SSPDS) a partir de solicitação do O POVO.
O relatório, que também aponta dados
deste ano, mostra que até abril último foram 495 denúncias de estupros no
Ceará. O número é maior que o do mesmo período do ano passado (478).
Somente em Fortaleza, no ano de 2015,
houve 483 casos; e, até abril deste ano, foram 147. A maioria dos casos
aconteceu na Área Integrada de Segurança (AIS) 2, onde ficam bairros como
Antônio Bezerra, Conjunto Ceará e Bom Jardim.
Vítimas
Para Hayeska Costa, assistente social
e pesquisadora do Observatório da Violência contra Mulher, o perfil da vítima é
de mulheres, independentemente de um recorte geracional. “São meninas,
adolescentes, adultas e idosas. A mulher é estuprada pelo fato de termos uma
cultura que educa desde o menino a se tornar um adolescente, um rapaz, um idoso
que pode e deve exercer algum tipo de poder e dominação não só sobre a vida,
mas também sobre o corpo de uma mulher”, detalha.
O cenário desta cultura se torna mais
desolador ao se observar que, mesmo com o quantitativo das estatísticas,
pouquíssimas vítimas realizam denúncias. Segundo a titular da Delegacia de
Defesa da Mulher (DDM) de Fortaleza, Rena Gomes, há muita resistência devido ao
preconceito com mulheres vítimas de violência sexual. “Há uma culpabilização
por conta da roupa, do lugar onde andava... Isso é um preconceito grave”,
afirma a delegada.
Outro fator que contribui para a
subnotificação é o fato de o estupro ser um crime de ação penal condicionada
(depende da queixa da vítima). “Muitas vezes essa vítima enfrenta também um
ambiente machista e hostil quando precisa ir ao IML, contar várias vezes o que
aconteceu, ou tem acesso a uma delegacia que não é especializada”, acredita
Hayesca Costa.
Aspectos
psicológicos
“Um crime de violência sexual causa
grandes danos físicos e psicológicos. A sexualidade é cercada de valores, e
todos eles também são violentados quando uma pessoa é estuprada”, comenta a
psicóloga clínica e terapeuta sexual Zenilce Bruno.
Segundo ela, o alto número de
estupros registrados no Ceará preocupa pela relação machista envolvida. “Em
minhas experiências clínicas, eu vi muitas mulheres se recuperarem com o apoio
de amigos, da família. Mas muitas pessoas carregam consigo traumas que têm
consequências na vida e nas relações sociais e profissionais”, aponta.