A pequena Mariana Rangel não estava
sozinha na hora de dar adeus aos cachos castanhos que a acompanhavam em seus
“sete, quase oito” anos de vida. A boneca, careca como alguns bebês
recém-nascidos, foi porto seguro em seu colo. A menina não demonstrava tensão e
disse não ter apego com as madeixas. “Estou feliz porque vou fazer outras
crianças felizes”, reconheceu.
Assim como ela, mais de 400 pessoas
foram ontem ao Hospital Geral Waldemar Alcântara (HGVA), em Messejana,
participar da segunda edição do projeto “Um pedacinho de amor não dói”, que
contou com dez cabeleireiros voluntários. A ação recolhe os fios que já não
fazem falta para alguns e os transformam em perucas para crianças que enfrentam
o câncer. Os beneficiários integram as entidades Lar Amigos de Jesus e
Associação de Amigos do Crio (Assocrio).
Enzo Rangel, 12, viu a oportunidade
de doar novamente o cabelo, que já estava abaixo do ombro. Em 2015, o menino
doou para a Instituição Peter Pan. “É muito bom doar. Eu me motivo sabendo que
vou fazer alguém feliz”. Segundo ele, a pretensão é realizar o afeto todo ano.
Para doações, o tamanho mínimo do cabelo é de 15 centímetros.
Há, ainda, quem deixava as mechas
crescerem, mas não sabia como reaproveitá-las. É o caso do coordenador de
vendas Leandro Nogueira, 37. Das cinco vezes em que deixou os fios tocarem as
costas, somente duas tiveram destino solidário. “Nas outras três, quando
cortei, foi pro lixo”, conta, desapontado. A promessa é manter a caridade.
A coordenadora do projeto, Marília
Karen, não esperava que o voluntariado se expandisse “tão rápido”. Na infância,
ela visitou com a mãe instituições que acolhiam crianças diagnosticadas com
câncer. À época, percebeu que seu cabelo poderia ter serventia. A proposta foi
colocada para amigas e familiares, que abraçaram a causa. E o projeto foi
crescendo.
“A gente também doa pra mulheres e
jovens que estão em processo de quimioterapia e não têm condições de comprar
uma peruca. É uma forma de amor e de recuperar a autoestima delas, que já
sofrem com o processo do câncer”, conta. Na primeira edição, mais de 130 mechas
foram recebidas.