Além do desemprego,
o endividamento de quase 60% das famílias brasileiras é um dos principais
responsáveis pela retração do consumo no País neste período de instabilidade
econômica. Pensando em minimizar esse problema, o governo do presidente Michel
Temer estuda liberar o saque de até R$ 1 mil do Fundo de Garantia do Tempo de
Serviço (FGTS) para o trabalhador pagar dívidas.
A possível mudança, que estaria no minipacote de medidas do governo para
estimular a economia, já começa a causar polêmica, por distorcer as principais
funções do FGTS: garantir verba para emergências e ajuda de custo para assuntos
importantes, como saúde e habitação, além de auxiliar o trabalhador em caso de
demissão.
Para o economista
Ediran Teixeira, a medida transformaria o FGTS em salário e, ao invés de
reduzir o endividamento no Brasil, abriria espaço para o trabalhador fazer mais
dívidas. "Boa parte do dinheiro do FGTS, que funciona como uma reserva,
seria gasto. As pessoas não podem confiar nesse recurso para quitar dívidas.
Isso colocaria a finalidade do FGTS pelo ralo", critica.
Pelos cálculos
realizados até agora por técnicos do governo federal, a medida poderia
comprometer até R$ 30 bilhões do fundo com recursos dos trabalhadores. Apesar
de haver resistência de alguns técnicos em relação à mudança, as posições
contrárias vêm diminuindo devido à falta de opções de medidas que não tenham
impacto fiscal.
Ceará
Com base em dados
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Ediran informa que,
no Ceará, cerca de 65% dos trabalhadores ganham até dois salários mínimos por
mês, o que corresponde a R$ 1.760. Ele calcula que, quem recebe um salário
mínimo (R$ 880), teria R$ 1.877 no FGTS em dois anos de trabalho, já contando com
13º e férias. Portanto, se esse trabalhador optasse por retirar R$ 1 mil do
fundo para quitar dívidas, ficaria com R$ 877.
"Haveria um
grande comprometimento da reserva, podendo deixar o trabalhador desamparado
quando ele precisar do dinheiro para as devidas finalidades", acrescenta
Ediran Teixeira
Seguro-desemprego
O economista lembra
ainda que, desde o início do ano passado, o acesso do trabalhador ao
seguro-desemprego está mais difícil em razão das novas regras aprovadas pelo
Congresso Nacional. Dessa forma, o fundo estaria mais vulnerável. "As
pessoas que ganham até dois salários mínimos, principalmente, poderiam ficar
com suas contas de FGTS zeradas", observa.
Para Ediran, ao
invés de tentar retomar o consumo no Brasil por meio do FGTS, o governo federal
deveria isentar o trabalhador de alguns impostos, baixar os juros e baratear o
crédito. "Isso costuma ser feito para as empresas quando elas estão com
dificuldades financeiras. Por que o governo não concede também benefícios dessa
natureza ao consumidor?", acrescenta.
Boa iniciativa
Diferentemente de
Ediran Teixeira, o economista Alex Araújo acredita que a liberação de parte do
FGTS para o pagamento de dívidas é uma boa medida para melhorar a situação
econômica do País. Ele lembra que, assim como o setor público, empresas e
consumidores estão endividados e precisam de alternativas para cumprir seus
compromissos financeiros.
"Essa medida
ajudaria a reduzir o nível de endividamento das famílias, que é o grande
empecilho para a retomada do consumo", destaca o economista, dizendo que o
trabalhador não seria prejudicado com a falta de recursos no fundo. "A
rentabilidade do FGTS é muito baixa, inferior à inflação. Já é um valor
considerado insuficiente para o trabalhador", acrescenta.
Por outro lado,
Alex afirma que a mudança só beneficiaria os trabalhadores do mercado formal,
ou seja, com carteira assinada. O endividamento, porém, atinge também
desempregados e aqueles que estão no mercado informal, obrigando o governo a
encontrar outras caminhos para solucionar o problema.
Minha Casa
O minipacote pode
englobar a faixa 4 do Programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV). Para técnicos do
governo, a criação de uma nova faixa de renda mudará o foco do programa, que
atualmente é a baixa renda. Porém, ao contrário da permissão de saque para
pagamento de dívida, a medida não comprometeria o orçamento futuro do FGTS.
Isso porque, a fim
de atender às famílias com renda superior a R$ 6,5 mil, haveria uma
redistribuição dos recursos do FGTS para a compra de imóveis do MCMV avaliados
acima de R$ 225 mil.
O ministro da
Fazenda, Henrique Meirelles, confirmou ontem o estudo da medida. "Estamos
estudando, sim, a questão do FGTS, se é realmente justificável e quais os
impactos econômicos de se permitir que o trabalhador use uma parcela para pagar
dívidas de alto custo. Toda essa relação de medidas será discutida e decidida
amanhã (hoje) com o presidente da República", declarou Meirelles.
Sobre o Fundo
O FGTS é um
depósito mensal, referente a um percentual de 8% do salário do empregado. Tem o
objetivo de auxiliar o trabalhador, caso ele seja demitido, em qualquer
hipótese de encerramento da relação de emprego. O FGTS foi instituído em 1966 e
é regulado por uma lei federal. Inicialmente, existia apenas como forma de
garantia de emprego, chamada de estabilidade.
Quem tem direito ao
fundo são trabalhadores urbanos e rurais, trabalhadores avulsos e empregados
domésticos. Não têm direito trabalhadores autônomos, que não possuem vínculo
empregatício.